Vale a pena ler para
tentar entender um pouco de economia, devemos nos conscientizar e não defender
partidos e sim defender o Brasil. Texto extraído do Facebook da página do meu
amigo Leonardo Stumpf
UM COLAPSO ANUNCIADO
Para o professor de
Harvard, o Brasil aproveitou mal os anos de economia externa favorável, abusou
da gastança e do protecionismo, mas não investiu no aumento da produtividade.
O Brasil desperdiçou os
anos favoráveis de preços valorizados das exportações ao ampliar os gastos
públicos, relegar as reformas e não investir o necessário para fortalecer o
potencial de crescimento. A análise parte do economista venezuelano Ricardo Hausmann,
diretor do centro para o desenvolvimento internacional da Kennedy School of
Government, da Universidade Harvard.
Para o especialista, que
é um dos professores do curso de mestrado da instituição brasileira Centro de
Liderança Pública, a iniciativa baseada na substituição de importações e na
exigência de conteúdo nacional pouco contribuiu para incentivar a produtividade
das empresas brasileiras.
“O protecionismo impede
o país de tirar proveito dos benefícios oferecidos pela globalização”, diz. “O
setor privado deve ser focado no mercado externo. Do contrário, as empresas
serão preguiçosas.” Hausmann recebeu VEJA em seu escritório, em Harvard.
* * * O Brasil buscou reduzir as desigualdades e
incentivar o crescimento por meio do aumento dos gastos públicos, com a criação
de programas sociais e a concessão de subsídios. Os resultados foram animadores
em alguns momentos, mas agora a economia estagnou. Como avalia essa estratégia?
O Brasil passou por uma
transição complicada nos anos 80, com o fim da ditadura militar, e dedicou
esforços à construção de um novo sistema político. A Constituição aprovada no
fim daquela década levou a um aumento das despesas públicas. Uma das
consequências foi a alta da inflação. Mais tarde, a hiperinflação foi
controlada, mas em grande parte graças a uma redução dos investimentos públicos
e ao aumento dos impostos.
O lado positivo dessa
história é que a inflação foi estabilizada, algumas reformas foram feitas, e o
país avançou. Entretanto, não existe poupança pública. O governo gasta
constantemente acima daquilo que arrecada. Muitos países possuem déficits
fiscais, mas o investimento público deles é superior aos déficits. O governo
brasileiro, ao contrário, acumula déficits não para ampliar os investimentos,
mas para custear as despesas correntes. O resultado é visível na infraestrutura
inadequada.
* * * O Brasil obteve alguns anos de crescimento
acelerado e chegou a ser apontado como um dos países mais promissores. Era uma
miragem?
Tudo chegou ao fim em
2010, quando, às vésperas da eleição, o governo se lançou em uma política de
gastança excessiva. O país cresceu mais de 7%, e as pessoas começaram a
imaginar que aquele seria o início de uma fase de crescimento chinês. Era
insustentável, e, como eu disse na ocasião, cedo ou tarde haveria um colapso.
A taxa de crescimento
tem sido frustrante, apesar das oportunidades existentes no país. O Brasil teve
governos com enorme capital político, mas que não utilizaram esse capital para
fazer as reformas necessárias. É inegável que o país tem pontos fortes,
sobretudo no setor privado, com empresas dinâmicas e atuantes em diversas
áreas. Em contrapartida, o setor público não demonstrou habilidade para
executar reformas mais profundas.
Na fase de alta nas
exportações dos anos 2000, contentou-se em ampliar os benefícios sociais. O
governo recorreu também a políticas no estilo dos anos 60, como no caso do
pré-sal. A Petrobras deveria ter sido mantida em um regime competitivo. Em vez
disso, o governo incentivou o monopólio no pré-sal, exigiu conteúdo nacional e
subsidiou a gasolina. Foi uma política pouco inteligente para desenvolver a
indústria do petróleo.
* * * Qual deveria ter sido o caminho seguido,
então?
O governo deveria ter
como prioridade o acúmulo de poupança pública, os investimentos em infraestrutura,
a simplificação do sistema tributário. Essas deficiências são conhecidas faz
anos, mas não parece ter havido vontade política para atacá-las. Além disso, o
Brasil, dono de um grande mercado interno de consumo, sempre tentou usar essa
característica como uma ferramenta de negociação. Tal instrumento, entretanto,
foi utilizado de maneira errada, privilegiando políticas protecionistas e pouco
saudáveis para a construção de uma economia competitiva.
* * * O senhor afirma que existem ações do
governo que contribuem para que as empresas sejam mais produtivas e outras que
tornam as empresas mais lucrativas. Qual é a diferença?
Com o avanço na
produtividade, todos ganham. Os salários aumentam, mais mercadorias são
vendidas, as empresas ganham, o governo arrecada impostos. Se as políticas
públicas, entretanto, apenas tornam as empresas mais lucrativas, e não mais
produtivas, nem todos saem ganhando.
É o caso das políticas
de conteúdo nacional. Com o mercado protegido, os consumidores pagam mais pelos
produtos. Se há diminuição de impostos para incentivar alguma indústria em
particular, o governo arrecada menos e os beneficiários dos serviços públicos
podem sair perdendo. Apenas a empresa beneficiada tira proveito. O foco das
políticas públicas deve ser o incentivo à produtividade, em um ambiente de
competição internacional, e não o lucro, em um contexto de reserva de mercado.
* * * O senhor, em colaboração com outros
pesquisadores, criou o índice da complexidade econômica. Qual é a finalidade do
indicador?
O que tentamos fazer foi
medir o escopo do know-how, do conhecimento de uma economia. Medimos o que é
produzido e quão difícil é produzir aqueles produtos ou serviços. Tipicamente,
países pobres são capazes de produzir poucas coisas, e coisas relativamente
simples. Nações ricas são capazes de fazer muitas coisas, das mais simples às
mais elaboradas, que poucos países são capazes de produzir.
É uma maneira de avaliar
a diversidade da capacidade produtiva de uma sociedade. Descobrimos que essa
medida é altamente correlacionada com o nível de renda e com o potencial de
crescimento (os dados estão disponíveis neste site).
* * * Como o Brasil aparece nesse índice?
O Brasil parou de
evoluir. Está estagnado. Tem uma economia menos complexa que a do México, por
exemplo. Existem regiões avançadas, mas o potencial do país é limitado por
causa do ambiente macroeconômico bastante hostil, com taxas de juros
extremamente elevadas, falta de poupança, alto custo de transação.
Outro problema é a
política externa. O Brasil foi capaz de transformar o Mercosul em uma piada de
mau gosto. A União Europeia possibilitou a criação de um sistema produtivo e de
comércio dinâmico, integrado. Os objetivos do Mercosul sempre penderam para o
protecionismo. As fábricas de carros, por exemplo, são desconectadas do mercado
mundial. Assim, o Brasil exporta carros ineficientes para a Argentina porque
não consegue competir com o México. Existem obstáculos para que o país se
transforme em uma economia mais complexa.
* * * A falta de mão de obra qualificada é um
obstáculo?
Sempre ouço queixas dos
brasileiros em relação à educação. Houve progressos nessa área. O Brasil tem
dado pouca atenção a um fator muito importante para o aumento da produtividade
de um país, que é a atração de mão de obra estrangeira de qualidade. Muitos
portugueses e espanhóis poderiam ter ido trabalhar no Brasil, quando não havia
oportunidade em seus países por causa da crise.
Não podemos esquecer o
papel crucial que a imigração teve no desenvolvimento brasileiro no século
passado, mas, nos últimos anos, isso deixou de ter importância. O Brasil
deveria ter regras que incentivassem a imigração, como era no passado e como é
ainda hoje nos Estados Unidos.
* * * A imigração contribuiria para a aceleração
do desenvolvimento?
Com certeza. Todos os
meus estudos sugerem que a tecnologia e o conhecimento se movem quando cérebros
se movem. É muito mais fácil transportar cérebros que criar conhecimento.
Quando se importam cérebros, e estes permanecem no país, eles contribuem para o
treinamento de uma nova geração de cérebros. A política de imigração deveria
ter um papel muito mais destacado no debate público brasileiro.
* * * Alguns países conseguiram escapar da
chamada armadilha da renda média. O segredo não foi o investimento em educação?
Existe um certo exagero
em vender a educação como uma bala de prata para resolver os problemas do
subdesenvolvimento. Acredito que é mais importante criar empresas e cadeias
produtivas capazes de desenvolver uma rede integrada de conhecimento com outras
empresas, universidades e institutos de pesquisa. Assim, é possível produzir
inovação em uma escala significativa. Melhorar a qualidade do ensino,
simplesmente, não basta.
Quando a Coreia do Sul
decidiu desenvolver um novo modelo de chip, porque acreditou que aquela seria
uma indústria importante no futuro, o projeto envolveu universidades, empresas,
governo. A Samsung transformou-se na maior exportadora do país. Nos anos 70, o
nível de desenvolvimento tecnológico dos coreanos era similar ao dos
brasileiros. O Brasil, nesse período, seguiu a estratégia de proteger o mercado
interno.
O setor privado deve ser
focado no mercado externo. Do contrário, as empresas serão preguiçosas e não
atingirão a evolução adequada. Nos países que conseguiram se desenvolver, como
a Coreia do Sul e Israel, existe a cultura de que os verdadeiros ganhos são
alcançados quando se conquista o mercado internacional.
* * * A globalização, como o senhor diz,
facilitou o desenvolvimento dos países e o processo de diminuir a distância que
separa os mais pobres daqueles mais ricos. Ainda assim, a América Latina pouco
avançou nas duas últimas décadas. Por quê?
A globalização facilitou
o desenvolvimento dos países em economias mais complexas. Isso porque eles não
precisam ser bons em todas as etapas de produção de uma mercadoria. Talvez você
não seja bom em design e marketing, mas talvez seja competente em corte e
costura. Com o tempo, poderá desenvolver as áreas de design e marketing. No
passado, você teria de cuidar de todas as etapas, e, como é muito difícil
aprender a fazer diversas coisas ao mesmo tempo, poucas atividades
sobreviveriam sem a ajuda de barreiras protecionistas.
A economia moderna
permite a globalização das cadeias produtivas. A Embraer é essencialmente uma
montadora de peças e equipamentos produzidos ao redor do mundo. Fabrica apenas
uma fração das partes de uma aeronave. Se houvesse uma política de conteúdo
nacional, a empresa provavelmente não seria capaz de fazer um único avião voar.
Tenho visto
transformações no México com o objetivo de tornar a economia mais complexa e
integrada às cadeias produtivas internacionais. No Brasil, o protecionismo
impede o país de tirar proveito dos benefícios de crescimento oferecidos pela
globalização.
* * * Há muito o senhor vem apontando os equívocos
na política econômica da Venezuela, desde os tempos em que o país era
favorecido pelo preço do petróleo nas alturas. Quais as perspectivas para a
Venezuela, seu país natal?
A Venezuela é uma
tragédia. É um dos experimentos econômicos e sociais mais desastrosos jamais
feitos em toda a história. Nunca houve um boom no petróleo tão grande e
prolongado como o recente. Ainda assim, o país começou a ter problemas quando o
barril do petróleo custava mais de 100 dólares. Perdeu o controle da inflação e
entrou em recessão, mesmo quando os preços do petróleo ainda eram favoráveis.
O governo destruiu a
sociedade civil, as liberdades individuais, a iniciativa privada. Infelizmente,
esse processo de destruição contou com a colaboração da América Latina, em
particular do Brasil. O apoio brasileiro à Venezuela não foi compatível com
seus compromissos com a Organização dos Estados Americanos e com os direitos
humanos.
O desastre venezuelano
terá repercussão em todo o continente, com impacto também no Brasil. Será um
problema regional. O Itamaraty terá de repensar seu papel na gestão desse
desastre. Terá de repensar os efeitos de subcontratar Marco Aurélio Garcia para
cuidar da política externa.
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